OBT: DPI: Gilberto Câmara: Música



Música

(In)definições

Tentar definir a música - que em todo caso não é um produto mas um processo - é quase como tentar definir a poesia, ou seja: trata-se de uma operação felizmente impossível, considerando a futilidade de querer estabelecer uma fronteira entre o que é música e o que não é, entre poesia e não-poesia. Talvez a música seja justamente isto: a procura de uma fronteira constantemente deslocada. (Luciano Berio)

Aqui apresento algumas indicações de discos que provocam, divertem, consolam e seduzem.

Música Antes de Bach

  • Monteverdi, "Vespro Della Beata Vergine". The English Baroque Soloists, John Eliot Gardiner (Archiv 429 565-2).

    As "Vésperas" de 1610, uma composição de Monteverdi maduro, no pleno domínio de seus meios, numa gravação excepcional, realizada na Basílica de São Marcos em Veneza, igreja onde o compositor foi maestro di capella.

  • Hildegarda de Bingen, "A Feather on the Breath of God". Gothic Voices, direção de Christopher Page (Hyperion CDA 66039).

    Uma abadessa frágil, que compunha tomada de uma iluminação divina, numa sequência de hinos compostos há 800 anos e que não nos cessam de lembrar das carências básicas do ser humano, jamais supridas pela tecnologia. A gravação do grupo inglês merece todos os superlativos que recebeu.

  • Josquin, "Missa Pange Lingua; Missa La Sol Fa Re Mi". The Tallis Scholars, dir. Peter Phillips (GIMELL GIM 009).

    Josquin des Prez foi o grande compositor de sua época (séc XV-XVI) e este CD é uma brilhante amostra de seu gênio inventivo. A partir de melodias de cantus firmus como Pange Lingua, Josquin elabora uma sofisticada polifonia, aqui magnificamente interpretada.

Sinfonias e Concertos

  • Mozart, "Concertos para Trompa (1-4). Dennis Brain (trompa), Orquestra Philarmonia, reg. Karajan.

    Música ao mesmo tempo agradável e jocosa, os concertos para trompa de Mozart devem sempre ser ouvidos num domingo de sol. A gravação histórica de Dennis Brain, de 1953, nos transmite toda a dimensão do gênio e do humor de Mozart.

  • Beethoven, "Sinfonia no. 3 (Heróica)". Chamber Orchestra of Europe, reg. Niklaus Harnoncourt (Teldec 9031-75708-2)

    Harnoncourt está convicto que a música de Beethoven é um exercício magistral de retórica, e sua interpretação nos dirige sempre a um discurso inspirado em que as notas falam.

  • Beethoven, "Sinfonia no. 9 (Coral)". Chamber Orchestra of Europe, reg. Niklaus Harnoncourt (Teldec 9031-75708-2)

    "Tudo já foi dito sobre este monumento gigantesco que é a sinfonia Coral, obra de toda uma vida, mas não se pode deixar de constatar que nem a multiplicidade de interpretações nem toda a literatura publicada a respeito, puderam abalar o prestígo de uma obra-prima onde milhões de pessoas continuam a descobrir as razões de crer no gênero humano" (Roland de Candé).

  • Berio, "Sinfonia". Orquestra Nacional da França, reg. Boulez.

    "Soar em conjunto": é neste sentido que Berio realiza o conceito de sinfonia. Obra instigante, que propõe um passeio pela "história da música" a partir de um tema gerador (o scherzo da 2a. sinfonia de Mahler). Fluxo de consciência sonoro que é também um discurso sobre o próprio processo musical, a Sinfonia de Berio é a obra maior de nosta época.

  • Beethoven - Missa Solemnis
    Chamber Orchestra of Europe - reg. Harnoncourt (Teldec 9031-74884-2)

    • Toda a "Missa" se baseia em paradoxos: ela é grande e complexa demais para servir como acompanhamento a uma missa católica, e se presta mais à afimação da grandeza da humanidade do que da humildade na presença divina. Como não ouvir o magnífico "Gloria" sem pensar num ode à humanidade? E o "Credo", será um creio em Deus ou no homem que conseguiu fazer uma música tão "divina"? Ouvir esta música fantástica serve como reafirmação do ideal iluminista e libertador sobre a arte.

    Quartetos de Cordas

    • Haydn, "Quartetos op.20". Quarteto Mosaiques (Auvidis E8784)

      A primeira expressão da forma "quarteto" já contém em si o germe que inspirou criações de Mozart e Beethoven. As interpretações refinadas do quarteto Mosaiques mostram quão reveladoras podem ser as interpretações "de época".

    • Mozart, "Quintetos de Cordas". Quinteto Grumiaux (Philips 422 511-2).

      Um conjunto de obras-primas absolutas, com destaque para o excepcional K516, talvez a mais bela obra instrumental de Mozart. A interpretação cristalina de Grumiaux e seus colegas deu a este disco um lugar no "Gramophone classical 100", seleção dos 100 melhores discos pela respeitada revista inglêsa.

    • Beethoven, "Quarteto op.130, Grande Fuga, op.133". Quarteto Végh (Auvidis V4407).

      Um quarteto cheio de diversidade e contrastes, cujo quinto movimento - a célebre cavatina - inclui "acentos angustiados, oprimidos, de uma linha melódica lacerada por silêncios" (Boucourechliev). A Grande Fuga, originalmente prevista para terminar o quarteto, é de uma modernidade prodigiosa, devido à "imprevisibilidade radical de seu desenvolvimento sonoro" (Lelong).

    • Schoenberg, "Verklärte Nacht - A Noite Transfigurada (versão original)". Quarteto de Hollywood (Testament mono SBT 1031).

      Obra singular, marco entre a tradição tonal e a ruptura posterior de Schoenberg, este sexteto busca "realizar uma síntese dialética entre as influências de Wagner e Brahms" (Leibowitz). Música de audição difícil? Apenas exigente, antecipando as contradições e angústias do século XX.

    • Villa-Lobos, "Quartetos nos. 4, 5 e 6". Quarteto Bessler-Reis (Kuarup KCD-034).

      Da obra amazônica de Villa-Lobos, estes três quartetos são uma síntese de sua produção. Da influência parisiense, universalista, do quarteto no.4, à combinação de estilos camerístico tradicional e folclórico que caracterizam o no.6, Villa nos oferece um pouco de nós mesmos, deste Brasil para quem "nada é estrangeiro, pois tudo o é" (Paulo Emílio Salles Gomes).

    Piano

    • Bach, "Variações Goldberg". Glenn Gould (SONY 772.003/2)

      Compostas, segundo a tradição, para minorar a insônia de um conde, as variações Goldberg são um exemplo da riqueza da criação. Ninguem melhor que Glenn Gould para extair da peça o sentimento, definido pelo próprio pianista, de "inteligencia coordenada".

    • Beethoven, "Sonata Op. 106" Emil Gilels

      A sonata op.106, chamada "Hammerklavier" (piano de martelo), foi concebida em função de toda a capacidade sonora do piano "moderno"Como disse Beethoven, "eis uma sonata que dará trabalho aos pianistas, quando a tocarem daqui a cincoenta anos".

    • Schubert, "Sonata D.960; 12 Danças D.790; Allegreto D.915" Stephen Kovacevich (EMI 7243-5-55359-2).

      Uma sonata e uma interpretação para desfazer o mito do Schubert alegre e civilizado. Por trás da aparente "gaieté" vienense, uma mensagem sobre o pathos trágico de um criador.

    • Schumann, "Fantasia Op.17"; Schubert, "Fantasia do Viajante". Maurizio Pollini (DG 423 134-2)

      A Fantasia de Schumann é talvez o mais belo canto de amor jamais escrito. Dedicado à amada distante Clara, o próprio compositor indica que "deve ser tocado do princípio ao fim, de uma maneira apaixonada". A interpretação de Pollini é completamente despida de exageros sentimentalistas, para nos trazer a essência da poesia de Schumann.

    • Ligeti, "Estudos para Piano". Pierre-Laurent Aimard (SONY SDK 62308) 

      Uma coleção de peças inovadoras, com sonoridades inspiradas em práticas musicais da África, que geram padrões musicais inovadores. A complexidade rítmica e métrica destas peças é magnificamente resgatada por Aimard.

    • Messiaen, "Catálogo de Pássaros (Livros 1-7)". Peter Hill (Unicorn DK 9062, 9075, 9090).

      Ecológico avant la lettre, Messiaen nos propõe uma fascinante contemplação da natureza, em harmonias e modos não-convencionais.

    Extra-Categoria

    • Varèse, "Ionização; Américas; Densidade 21.5; Oferendas; Arcana; Octógono; Integrais". Filarmônica de Nova Iorque, Ensemble Intercontemporain, dir. Pierre Boulez (SONY SMK 45844).

      Uma introdução à obra enigmática e perturbadora de Edgar Varèse, que propõe "uma organização de sons determinados por uma nova escala sonora" (Choquer). Destaque para Ionização, primeira peça da música ocidental composta unicamente por instrumentos de percussão.

    • Bártok, "Sonata para Dois Pianos e Percussão". Martha Argerich, Nélson Freire (pianos).

      Nenhuma interpretação nos leva mais próximo ao universo inusitado de Bela Bártok que este encontro sublime de dois grandes pianistas.

    • Bach, "A Arte da Fuga". Davitt Moroney (cravo).

      Elaboração incessante e envolvente em torno de dois temas, a última obra de Bach é um testamento musical do seu poder de invenção.

    • Bach, "Suites para Violoncelo Solo". Anner Bylsma (SONY SDK 48047).

      Numa das expressões mais puras da música, o ouvinte tem a constante sensação de "ouvir mais de uma linha melódica de cada vez" (Lelong). A organização do tempo musical destas suítes consiste de "uma linguagem essencialmente constituída de frases lançadas, encaminhadas para a frente, incontidas e desenhadas com grande beleza".

    • Luciano Berio – Sequenzas (completas)
      Ensemble Intercontemporain – DG 457 038-02 (3 CDs)

      Quatorze obras para instrumentos solistas (inclusive a voz), que exploram as diferentes possibilidades harmônicas e expressivas de cada instrumento, e buscam o mesmo impossível que Bach almejava em suas suítes para violino e violoncelo solo: uma escuta polifônica, sugerida pela intensa virtuosidade das peças. Esta gravação é um tributo à invenção e à capacidade de criação da música atual, ajudada por excelentes interpretações. Como disse a crítica inglesa: Listen, and be astonished. Depois de ouvi-las, até Mozart tem outro gosto....

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