|
Música
(In)definições
Tentar definir a música - que em todo caso não é um
produto mas um processo - é quase como tentar definir a poesia, ou seja: trata-se de uma
operação felizmente impossível, considerando a futilidade de querer estabelecer uma
fronteira entre o que é música e o que não é, entre poesia e não-poesia. Talvez a
música seja justamente isto: a procura de uma fronteira constantemente deslocada.
(Luciano Berio)
Aqui apresento algumas indicações de discos que provocam,
divertem, consolam e seduzem.
Música Antes de Bach
As "Vésperas" de 1610, uma composição de Monteverdi
maduro, no pleno domínio de seus meios, numa gravação excepcional, realizada na
Basílica de São Marcos em Veneza, igreja onde o compositor foi maestro di capella.
Uma abadessa frágil, que compunha tomada de uma iluminação
divina, numa sequência de hinos compostos há 800 anos e que não nos cessam de lembrar
das carências básicas do ser humano, jamais supridas pela tecnologia. A gravação do
grupo inglês merece todos os superlativos que recebeu.
Josquin des Prez foi o grande compositor de sua época (séc
XV-XVI) e este CD é uma brilhante amostra de seu gênio inventivo. A partir de melodias
de cantus firmus como Pange Lingua, Josquin elabora uma sofisticada
polifonia, aqui magnificamente interpretada.
Sinfonias e Concertos
Música ao mesmo tempo agradável e jocosa, os concertos para
trompa de Mozart devem sempre ser ouvidos num domingo de sol. A gravação histórica de
Dennis Brain, de 1953, nos transmite toda a dimensão do gênio e do humor de Mozart.
Harnoncourt está convicto que a música de Beethoven é um
exercício magistral de retórica, e sua interpretação nos dirige sempre a um discurso
inspirado em que as notas falam.
"Tudo já foi dito sobre este monumento gigantesco que é a
sinfonia Coral, obra de toda uma vida, mas não se pode deixar de constatar que nem a
multiplicidade de interpretações nem toda a literatura publicada a respeito, puderam
abalar o prestígo de uma obra-prima onde milhões de pessoas continuam a descobrir as
razões de crer no gênero humano" (Roland de Candé).
"Soar em conjunto": é neste sentido que Berio realiza o
conceito de sinfonia. Obra instigante, que propõe um passeio pela
"história da música" a partir de um tema gerador (o scherzo da 2a.
sinfonia de Mahler). Fluxo de consciência sonoro que é também um discurso sobre o
próprio processo musical, a Sinfonia de Berio é a obra maior de nosta época.
Beethoven - Missa Solemnis
Chamber Orchestra of Europe - reg. Harnoncourt (Teldec 9031-74884-2)
Toda a "Missa" se baseia em
paradoxos: ela é grande e complexa demais para servir como acompanhamento
a uma missa católica, e se presta mais à afimação da grandeza da
humanidade do que da humildade na presença divina. Como não ouvir o magnífico
"Gloria" sem pensar num ode à humanidade? E o
"Credo", será um creio em Deus ou no homem que conseguiu fazer
uma música tão "divina"? Ouvir esta música fantástica serve como reafirmação do ideal iluminista e libertador
sobre a arte.
Quartetos de Cordas
A primeira expressão da forma "quarteto" já contém em si o germe
que inspirou criações de Mozart e Beethoven. As interpretações refinadas do quarteto
Mosaiques mostram quão reveladoras podem ser as interpretações "de época".
Um conjunto de obras-primas absolutas, com destaque para o excepcional K516,
talvez a mais bela obra instrumental de Mozart. A interpretação cristalina de Grumiaux e
seus colegas deu a este disco um lugar no "Gramophone classical 100", seleção
dos 100 melhores discos pela respeitada revista inglêsa.
Um quarteto cheio de diversidade e contrastes, cujo quinto movimento - a
célebre cavatina - inclui "acentos angustiados, oprimidos, de uma linha
melódica lacerada por silêncios" (Boucourechliev). A Grande Fuga,
originalmente prevista para terminar o quarteto, é de uma modernidade prodigiosa, devido
à "imprevisibilidade radical de seu desenvolvimento sonoro" (Lelong).
Obra singular, marco entre a tradição tonal e a ruptura posterior de
Schoenberg, este sexteto busca "realizar uma síntese dialética entre as
influências de Wagner e Brahms" (Leibowitz). Música de audição difícil? Apenas
exigente, antecipando as contradições e angústias do século XX.
Da obra amazônica de Villa-Lobos, estes três quartetos são uma síntese de
sua produção. Da influência parisiense, universalista, do quarteto no.4, à
combinação de estilos camerístico tradicional e folclórico que caracterizam o no.6,
Villa nos oferece um pouco de nós mesmos, deste Brasil para quem "nada é
estrangeiro, pois tudo o é" (Paulo Emílio Salles Gomes).
Piano
Compostas, segundo a tradição, para minorar a insônia de um conde, as
variações Goldberg são um exemplo da riqueza da criação. Ninguem melhor que Glenn
Gould para extair da peça o sentimento, definido pelo próprio pianista, de
"inteligencia coordenada".
A sonata op.106, chamada "Hammerklavier" (piano de martelo),
foi concebida em função de toda a capacidade sonora do piano
"moderno"Como disse Beethoven, "eis uma sonata que dará
trabalho aos pianistas, quando a tocarem daqui a cincoenta anos".
Uma sonata e uma interpretação para desfazer o mito do Schubert alegre e
civilizado. Por trás da aparente "gaieté" vienense, uma mensagem
sobre o pathos trágico de um criador.
A Fantasia de Schumann é talvez o mais belo canto de amor jamais
escrito. Dedicado à amada distante Clara, o próprio compositor indica que "deve ser
tocado do princípio ao fim, de uma maneira apaixonada". A interpretação de Pollini
é completamente despida de exageros sentimentalistas, para nos trazer a essência da
poesia de Schumann.
Uma coleção de peças inovadoras, com sonoridades inspiradas em práticas
musicais da África, que geram padrões musicais inovadores. A complexidade rítmica e
métrica destas peças é magnificamente resgatada por Aimard.
Ecológico avant la lettre, Messiaen nos propõe uma fascinante
contemplação da natureza, em harmonias e modos não-convencionais.
Extra-Categoria
Varèse, "Ionização; Américas; Densidade 21.5; Oferendas; Arcana;
Octógono; Integrais". Filarmônica de Nova Iorque, Ensemble
Intercontemporain, dir. Pierre Boulez (SONY SMK 45844).
Uma introdução à obra enigmática e perturbadora de Edgar Varèse, que
propõe "uma organização de sons determinados por uma nova escala sonora"
(Choquer). Destaque para Ionização, primeira peça da música ocidental
composta unicamente por instrumentos de percussão.
Nenhuma interpretação nos leva mais próximo ao universo inusitado de Bela
Bártok que este encontro sublime de dois grandes pianistas.
Elaboração incessante e envolvente em torno de dois temas, a última obra de
Bach é um testamento musical do seu poder de invenção.
Numa das expressões mais puras da música, o ouvinte tem a constante sensação
de "ouvir mais de uma linha melódica de cada vez" (Lelong). A organização do
tempo musical destas suítes consiste de "uma linguagem essencialmente constituída
de frases lançadas, encaminhadas para a frente, incontidas e desenhadas com grande
beleza".
Quatorze obras para instrumentos solistas (inclusive a voz), que exploram
as diferentes possibilidades harmônicas e expressivas de cada instrumento,
e buscam o mesmo impossível que Bach almejava em suas suítes para
violino e violoncelo solo: uma escuta polifônica, sugerida pela intensa
virtuosidade das peças. Esta gravação é um tributo
à invenção e à capacidade de criação da música atual, ajudada por
excelentes interpretações. Como disse a crítica inglesa: Listen, and be
astonished. Depois de ouvi-las, até Mozart tem outro gosto....
|