Variograma - Geoestatística

Esta página apresenta alguns conceitos sobre variograma, como parte do módulo de geoestatística do SPRING. Os tópicos apresentados aqui são:


VARIOGRAMA - O que é ?

O variograma é uma ferramenta básica de suporte às técnicas de krigeagem, que permite representar quantitativamente a variação de um fenômeno regionalizado no espaço (Huijbregts, 1975).

Considere duas variáveis regionalizadas, X e Y, onde X = Z(x) e Y = Z(x+h). Neste caso, referem-se ao mesmo atributo (por exemplo, o teor de zinco no solo) medido em duas posições diferentes, conforme ilustra a Figura abaixo, onde

Fig. - Amostragem em duas dimensões.

x denota uma posição em duas dimensões, com componentes (xi , yi), e h um vetor distância (módulo e direção) que separa os pontos.

O nível de dependência entre essas duas variáveis regionalizadas, X e Y, é representado pelo variograma, 2g (h), o qual é definido como a esperança matemática do quadrado da diferença entre os valores de pontos no espaço, separados pelo vetor distância h, isto é,

2g (h) = E{[Z(x)-Z(x+h)]2} = Var[Z(x)-Z(x+h)] . (13)

Através de uma amostra z(xi), i=1, 2, ..., n, o variograma pode ser estimado por

, (14)

onde:


Muitos autores definem variograma de forma distinta da Equação (13), considerando o que comumente se refere como semivariograma, dado por:


. (15)


Analogamente, a função semivariograma pode ser estimada por:


(16)

onde N(h), z(xi) e z(xi +h) são conforme já definidos.


PARÂMETROS DO SEMIVARIOGRAMA

A Figura abaixo ilustra um semivariograma experimental com características muito próximas do ideal. O seu padrão representa o que, intuitivamente, se espera de dados de campo, isto é, que as diferenças {Z(xi) - Z(xi + h)} decresçam à medida que h, a distância que os separa decresce. É esperado que observações mais próximas geograficamente tenham um comportamento mais semelhante entre si do que aquelas separadas por maiores distâncias. Desta maneira, é esperado que g (h) aumente com a distância h.

Exemplo de semivariograma.

Os parâmetros do semivariograma podem ser observados diretamente da Figura :




CÁLCULO DO SEMIVARIOGRAMA A PARTIR DE AMOSTRAS REGULARMENTE ESPAÇADAS

Considere o conjunto de amostras regularmente espaçadas, em duas dimensões, conforme apresentado na Figura abaixo.

Fig. - Amostras regularmente espaçadas em duas dimensões.

Para determinar o semivariograma experimental, por exemplo, na direção de 900 o cálculo de é repetido para todos os intervalos de h. Suponha a distância entre dois pontos consecutivos igual a 100 metros (d=100m). Então, qualquer par de observações, na direção 900, cuja distância é igual a 100m será incluído no cálculo de . Isto feito, os cálculos são repetidos para a próxima distância, por exemplo, 200m. Isto inclui todos os pares de observações cuja distância é igual a 200m. O processo é repetido até que algum ponto de parada desejado seja alcançado. Este procedimento pode ser melhor compreendido com o auxílio da Figura 2.5 e também deve ser realizado para outras direções (00, 450 e 1350).

Fig. - Ilustração para o cálculo do semivariograma a
partir de amostras regularmente espaçadas.


CÁLCULO DO SEMIVARIOGRAMA A PARTIR DE AMOSTRAS IRREGULARMENTE ESPAÇADAS

Considere o conjunto de amostras irregularmente espaçadas, em duas dimensões, conforme apresentado na Figura abaixo. Neste caso, para determinar o semivariograma experimental, é necessário introduzir limites de tolerância para direção e distância.


Fig. - Parâmetros para o cálculo do semivariograma a partir de amostras
irregularmente espaçadas em duas dimensões.
FONTE: Modificada de Deutsch e Journel (1992), p. 45.

Tome como referência o Lag2 (Lag refere-se a uma distância pré-definida, a qual é utilizada no cáculo do semivariograma) da figura acima. Suponha um incremento de Lag igual a 100 metros com tolerância de 50 metros. Considere ainda a direção de medida 450 com tolerância angular 22.50. Então, qualquer par de observações cuja distância está compreendida entre 150m e 250m e 22.50 e 67.50 será incluído no cálculo do semivariograma de Lag2. Este processo se repete para todos os Lag’s.

Ainda com referência na Figura acima, a largura de banda (BW) se refere a um valor de ajuste a partir do qual se restringe o número de pares de observações para o cálculo do semivariograma.

A próxima etapa constitui o ajuste de um modelo teórico ao semivariograma experimental, conforme descrito a seguir.



MODELOS TEÓRICOS

O gráfico do semivariograma experimental,, calculado através da Equação (16), é formado por uma série de valores, conforme ilustra a Figura acima, sobre os quais se objetiva ajustar uma função. É importante que o modelo ajustado represente a tendência de em relação a h. Deste modo, as estimativas obtidas a partir da krigeagem serão mais exatas e, portanto mais confiáveis.

O procedimento de ajuste não é direto e automático, como no caso de uma regressão, por exemplo, mas sim interativo, pois nesse processo o intérprete faz um primeiro ajuste e verifica a adequação do modelo teórico. Dependendo do ajuste obtido, pode ou não redefinir o modelo, até obter um que seja considerado satisfatório.

Os modelos aqui apresentados são considerados modelos básicos, denominados de modelos isotrópicos por Isaaks e Srivastava (1989). Estão divididos em dois tipos: modelos com patamar e modelos sem patamar. Modelos do primeiro tipo são referenciados na geoestatística como modelos transitivos. Alguns dos modelos transitivos atingem o patamar (C) assintoticamente. Para tais modelos, o alcance (a) é arbitrariamente definido como a distância correspondente a 95% do patamar. Modelos do segundo tipo não atingem o patamar, e continuam aumentanto enquanto a distância aumenta. Tais modelos são utilizados para modelar fenômenos que possuem capacidade infinita de dispersão.


MODELO EFEITO PEPITA

Conforme discutido em Parâmetros do Semivariograma, muitos semivariogramas experimentais apresentam uma descontinuidade na origem. Quando |h|=0, o valor do semivariograma é estritamente zero. Porém quando |h| tende a zero, o valor do semivariograma pode ser significativamente maior que zero, isto é, ocorre uma descontinuidade na origem. Tal descontinuidade é modelada através do modelo de efeito pepita, assim definido:

g o (|h|) = (17)

Na literatura geoestatística, o efeito pepita não é classificado como modelo básico, mas aparece como uma constante (Co) na equação do semivariograma, e deve ser entendido que Co = 0 quando |h| = 0. A rigor, a notação para o efeito pepita é Co g o(|h|), onde Co representa o valor da descontinuidade na origem, e g o(|h|) é o modelo de efeito pepita normalizado conforme apresentado na Equação 17. Esta notação é consistente com a apresentação dos modelos básicos aqui descritos e torna-se conveniente quando se usa um modelo composto.

Os modelos transitivos mais utilizados são: modelo esférico (Sph), modelo exponencial (Exp) e modelo gaussiano (Gau). Estes modelos estão apresentados na Figura abaixo com o mesmo alcance (a).


Fig. - Representação gráfica de modelos transitivos normalizados.
FONTE: Modificada de Isaaks e Srivastava (1989), p. 374.


MODELO ESFÉRICO

O modelo esférico é um dos modelos mais utilizados e está representado em vermelho na Figura acima. A equação normalizada deste modelo é:

(18)


MODELO EXPONENCIAL

Um outro modelo bastante utilizado é o modelo exponencial, o qual é apresentado em azul na Figura acima. A equação normalizada deste modelo é:

(19)

Este modelo atinge o patamar assintoticamente, com o alcance prático definido como a distância na qual o valor do modelo é 95% do patamar (Isaaks e Srivastava, 1989).


MODELO GAUSSIANO

O modelo gaussiano é um modelo transitivo, muitas vezes usado para modelar fenômenos extremamente contínuos (Isaaks e Srivastava, 1989). Sua formulação é dada por:

(20)

Semelhante no modelo exponencial, o modelo gaussiano atinge o patamar assintoticamente e o parâmetro a é definido como o alcance prático ou distância na qual o valor do modelo é 95% do patamar (Isaaks e Srivastava, 1989). O que caracteriza este modelo é seu comportamento parabólico próximo à origem, conforme representado na Figura acima através da linha sólida verde.


MODELO POTÊNCIA

O modelo potência não é um modelo transitivo, portanto não atinge o patamar. Em geral, este tipo de modelo é utilizado para modelar fenômenos com capacidade infinita de dispersão. A Figura abaixo ilustra o modelo potência, o qual é expresso através de:

(21)

onde,


Fig. - Representação gráfica do modelo potência.


Até este ponto foram apresentados os principais modelos básicos normalizados, os quais são utilizados para modelar ou ajustar o semivariograma experimental. Na prática, os semivariogramas experimentais possuem valores de efeito pepita (Co) maior que zero e valores de patamar (C) maiores que a unidade, conforme ilustrado na Figura abaixo.

Fig. - Representação gráfica de semivariogramas experimentais e modelos teóricos. Em resumo, os semivariogramas dos modelos transitivos básicos são assim definidos:


(22)

(23)


(24)

De maneira análoga, o modelo potência é escrito em termos de semivariograma da seguinte forma:

g (25)



MODELOS ANINHADOS

Existem determinados fenômenos em que são necessários modelos mais complexos de semivariograma para explicar suas variações espaciais. Estes modelos são combinações de modelos simples, denominados aninhados. McBratney e Webster (1986) observaram que modelos aninhados são necessários para explicar a variação do solo decorrente de fatores independentes de formação. Por exemplo, um modelo aninhado útil em estudos de mineração e pesquisa de solo é o duplo esférico. McBratney et al. (1982) o utilizaram para descrever a variação do cobre e do cobalto no solo. Este modelo é definido como:

(26)

onde,


Este modelo é mostrado na Figura abaixo, onde as linhas sólidas representam os modelos de ajuste teórico ao semivariograma experimental.



Fig. - Representação gráfica de um modelo duplo esférico.


Dependendo do fenômeno em estudo, outros modelos aninhados são necessários para caracterizar a variabilidade espacial. Por exemplo: duplo exponencial, exponencial com duplo esférico, linear com duplo esférico, etc.



ANISOTROPIA

A anisotropia pode ser facilmente constatada através da observação dos semivariogramas obtidos para diferentes direções. As convenções direcionais usadas na geoestatística são mostradas na Figura abaixo.


Fig. - Convenções direcionais usadas na geoestatística.

Considere os semivariogramas obtidos para as direções 00, 450, 900 e 1350, ilustrados na Figura abaixo. Verifica-se uma similaridade bastante grande entre eles. Esta é a representação de um caso simples e menos freqüente, em que a distribuição espacial do fenômeno é denominada isotrópica. Neste caso, um único modelo é suficiente para descrever a variabilidade espacial do fenômeno em estudo.

Fig. - Representação gráfica de semivariogramas isotrópicos.

Por outro lado, se os semivariogramas não são iguais em todas as direções, a distribuição é denominada anisotrópica. Se a anisotropia é observada e é refletida pelo mesmo Patamar (C) com diferentes Alcances (a) do mesmo modelo, então ela é denominada Geométrica.

Considere o semivariograma ilustrado na Figura abaixo. Os pontos interligados com linhas tracejadas são os semivariogramas experimentais em duas direções ortogonais. O semivariograma que atinge primeiro o patamar (azul) se refere à direção de 1200 e o semivariograma com maior alcance (vermelho) se refere à direção de 300. As linhas sólidas em ambas direções são os modelos teóricos de ajuste dos semivariogramas experimentais.


Fig. - Representação gráfica de anisotropia geométrica.

Um modo direto de visualizar e calcular os parâmetros (fator e ângulo) da anisotropia geométrica é através do esboço gráfico de uma elipse, calculada através dos alcances obtidos em direções distintas, conforme Figura abaixo. As convenções que seguem, são as adotadas por Deutsch e Journel (1992). Para o eixo maior da elipse, denominado direção de máxima continuidade, aplica-se o maior alcance(a1). O ângulo da direção de máxima continuidade é definido a partir da direção Norte e no sentido horário. Seu valor corresponde à direção de maior alcance. O eixo menor define o alcance(a2) na direção de menor continuidade, sendo este ortogonal à direção principal.


Fig. - Representação gráfica da anisotropia geométrica em duas dimensões.
FONTE: Modificada de Deutsch e Journel (1992), p. 24.

O fator de anisotropia geométrica é definido como a razão entre o alcance na direção de menor continuidade (a2) e o alcance na direção de maior continuidade (a1). Neste caso, o fator de anisotropia geométrica é sempre menor que a unidade e o ângulo de anisotropia é igual ao ângulo da direção de máxima continuidade.

Existe ainda um outro tipo de anisotropia em que os semivariogramas apresentam os mesmos Alcances (a) e diferentes Patamares (C). Neste caso, a anisotropia é denominada Zonal. Como a isotropia, a anisotropia zonal também é um caso menos freqüente presente nos fenômenos naturais. O mais comum é encontrar combinações da anisotropia zonal e geométrica, denominada anisotropia combinada.

Considere o semivariograma apresentado na Figura abaixo. Os pontos interligados com linhas tracejadas correspondem a semivariogramas experimentais em duas direções ortogonais. O semivariograma com maior patamar (azul) refere-se à direção de 600 e o semivariograma com menor patamar (vermelho) refere-se à sua direção perpendicular (1500). Os modelos de ajuste aos semivariogramas estão representados por linhas sólidas.


Fig. - Representação gráfica de anisotropia combinada.

Segundo Isaaks e Srivastava (1989), citados por Deutsch e Journel (1992, p. 25), a anisotropia zonal pode ser considerada como um caso particular da anisotropia geométrica, ao se supor um fator de anisotropia muito grande. Nesta condição, o alcance implícito na direção de menor continuidade é muito grande. A estrutura do semivariograma é então adicionada somente para a direção de maior continuidade.




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Sequência de Procedimentos no SPRING

Consulte também:
Variáveis regionalizadas
Sobre Krigeagem
Análise Espacial no SPRING
Modelagem Numérica de Terreno
Edição vetorial